Magic Formula by Quanty: A Engenharia do Lucro

 

📚 O que é a Magic Formula?

Imagine que você está em uma feira livre, cercado por barracas vendendo todo tipo de mercadoria. Algumas barracas são excelentes: têm produtos de alta qualidade e vendem muito bem, gerando lucro com pouco investimento. Outras são barracas medianas ou até ruins, vendendo pouco e com margens apertadas.

Agora, suponha que você tenha a chance de comprar uma participação em qualquer barraca da feira. Qual escolher?
Claro: você quer uma barraca que dá muito lucro e que ainda esteja barata para comprar.

Essa é exatamente a ideia da Magic Formula, criada por Joel Greenblatt no livro The Little Book That Beats the Market: encontrar empresas que sejam simultaneamente boas (eficientes) e baratas (negociadas a múltiplos baixos).

🎯 Dois critérios principais formam a essência da estratégia:

  • Qualidade: buscar empresas com alto retorno sobre o capital investido (Return on Invested CapitalROIC).

  • Preço: escolher aquelas que estão baratas em relação aos seus lucros, representado pelo Earnings Yield (representado pelo indicador EBIT/EV).

Greenblatt demonstrou que, ao selecionar ações que combinam essas duas características, era possível superar consistentemente o desempenho do mercado no longo prazo.
O segredo? Seguir a estratégia com disciplina, sem se deixar abalar pelos altos e baixos naturais do mercado.

💡 Resumindo:
A Magic Formula é como montar uma cesta só com as melhores barracas da feira — aquelas que geram muito dinheiro e que ainda estão sendo vendidas por um preço de oportunidade.

 🔎 Como a estratégia funciona na prática?

Apesar do nome "Magic Formula" soar místico, a lógica por trás dela é extremamente simples e racional — quase como uma receita de bolo quantitativo.

🎯 Passo a passo da estratégia original:

  1. Calcular o Retorno sobre o Capital Investido (ROIC):
    Medimos quão eficiente é a empresa em gerar lucro para cada real investido em seu próprio negócio.
    Quanto maior o ROIC, melhor a qualidade da empresa.

  2. Calcular o Earnings Yield (adaptado para EV/EBIT):
    Tradicionalmente, o
    Earnings Yield é calculado como EBIT dividido pelo Enterprise Value (EV).
    No entanto, para facilitar o processo de classificação das empresas, utilizamos a forma invertida:
    EV dividido pelo EBIT.
    Essa inversão é apenas uma reorganização matemática e
    não altera os resultados, pois estamos apenas mudando o sentido da análise.
    De qualquer forma, a essência permanece: buscamos identificar empresas
    que geram muito lucro em relação ao seu valor econômico, considerando o impacto de dívidas e caixa.

  3. Rankear todas as empresas da bolsa:
    Cada empresa recebe duas classificações:

    • Um ranking de qualidade baseado no ROIC.

    • Um ranking de preço baseado no Earnings Yield.

  4. Somar os rankings e selecionar as melhores:
    As empresas com a melhor soma dos dois rankings são escolhidas para formar o portfólio.

  5. Montar a carteira e rebalancear periodicamente:

    • A carteira é montada com 20 a 30 ações.

    • Rebalanceada anualmente.

🔵 Exemplo prático (hipotético):

  • Empresa A: ROIC muito alto, mas preço razoável.

  • Empresa B: Preço extremamente barato, mas qualidade apenas mediana.

  • Empresa C: Boa qualidade e bom preço.

➡️ A Magic Formula escolheria a Empresa C, porque ela equilibra os dois pontos: é boa e está barata.

💡 Resumo prático:
Não basta comprar só empresas boas (podem estar caras). Nem apenas empresas baratas (podem ser ruins). A estratégia combina os dois lados para buscar valor com qualidade.

🧠 A Magic Formula: Factor Investing em linguagem simples

Embora Joel Greenblatt tenha apresentado a estratégia de maneira lúdica, a essência da Magic Formula é exatamente o que chamamos de factor investing.
(Se você ainda não está familiarizado com o conceito de factor investing, recomendamos a leitura deste post: O que é Factor Investing?).

Na prática:

  • Fator Qualidade ➔ Representado pelo ROIC (Return on Invested Capital), que mede a eficiência das empresas em gerar lucro sobre o capital investido.

  • Fator Valor ➔ Representado pelo Earnings Yield (no caso, calculado como EV/EBIT), que aponta o quão barato o ativo está em relação ao seu lucro operacional.

💬 Ou seja, a Magic Formula nada mais é do que uma estratégia sistemática de fatores — explicada de forma lúdica para facilitar a compreensão e incentivar a disciplina do investidor.

🛠️ Hora de pôr a mão na massa: testando a estratégia original

Agora que você já entendeu o conceito da Magic Formula, é hora de pôr a mão na massa e testar como essa estratégia se comportou nos nossos dados históricos.

Aplicamos a metodologia exatamente como descrita por Joel Greenblatt. Selecionamos, ano após ano, os 20 ativos com melhor combinação entre retorno sobre capital investido (ROIC) e earnings yield (EV/EBIT), realizando o rebalanceamento uma vez por ano, a cada 252 dias úteis.

A expectativa era alta. Se a fórmula funcionou tão bem nos Estados Unidos, por que não funcionaria aqui? Mas o mercado brasileiro, como sempre, apresentou seus próprios desafios.

Entre 2013 e 2024, a estratégia entregou um retorno acumulado de +201,36%, bem acima dos +97,34% do IBOVESPA e também superando o CDI, que fechou o período com +189,51%. Em termos de retorno anualizado, isso representa 9,79% ao ano, com um Sharpe de 0,44 e uma volatilidade de 22,12%. O número que mais chamou atenção, porém, foi o drawdown máximo de -47,44% — uma queda quase devastadora para quem estivesse seguindo a estratégia na prática.

Embora o desempenho relativo tenha sido positivo, o resultado foi, no mínimo, desconfortável.
A estratégia exigiu do investidor uma resiliência psicológica enorme para suportar os períodos de crise, especialmente porque os piores momentos chegaram a acumular perdas de quase 50% no portfólio.

Em outras palavras:
A estratégia venceu o mercado, mas com um sofrimento difícil de ignorar.

Foi aí que identificamos um ponto-chave que não podia ser ignorado:
Enquanto nos Estados Unidos a Magic Formula é aplicada sobre um universo de cerca de 5.800 ações listadas, no Brasil trabalhamos com menos de 500 ativos.

Esse detalhe muda tudo.
Selecionar 20 ações num universo de milhares é uma peneira rigorosa. Escolher 20 ações num mercado de 500 ativos é quase abrir mão de ser seletivo. Estamos falando de uma diferença de escala que compromete a essência da estratégia.

💡 A primeira conclusão prática foi óbvia:
Se quiséssemos restaurar a lógica original da Magic Formula — investir apenas nas melhores entre as melhores — precisaríamos reduzir o número de ativos escolhidos.

E foi exatamente isso que fizemos no próximo teste: diminuir a carteira para apenas 5 ações.
Uma mudança pequena no papel, mas que, como veremos a seguir, teve impacto gigantesco na performance.

🎯 Refinando a seleção: reduzindo para 5 ativos

Com o diagnóstico claro de que o universo de ações no Brasil é muito menor do que nos Estados Unidos, realizamos a primeira adaptação fundamental: reduzimos a carteira de 20 para apenas 5 ativos.

A lógica era simples:
Se temos menos empresas, precisamos ser ainda mais criteriosos.
Selecionar 5 ações — e não 20 — garantiria uma concentração real nas melhores oportunidades, preservando o espírito original da estratégia de Greenblatt.

🛠️ Novos parâmetros do teste:

  • Seleção dos 5 melhores ativos com base em ROIC e EV/EBIT.

  • Rebalanceamento anual (252 dias úteis).

  • Sem filtros de risco adicionais (volatilidade, VaR ou stop loss ainda não aplicados).

E os resultados mostraram que o ajuste fazia todo sentido.

🧠 Resultados entre 2013 e 2024:

  • Retorno acumulado: consideravelmente superior ao teste anterior.

  • Retorno anualizado: acima de 20% ao ano.

  • Sharpe Ratio: 0,65 (melhor que o teste anterior, mas ainda modesto).

  • Volatilidade: aumentou em relação à carteira de 20 ativos.

  • Drawdown máximo: permaneceu elevado.

📊 Análise crítica: A estratégia deu um salto de performance em termos de retorno absoluto, mas, como esperado, o preço pago foi um aumento significativo da volatilidade.

Ao reduzir o número de ações, deixamos o portfólio mais exposto às oscilações específicas de cada ativo.
O comportamento passou a ser mais errático, com quedas e recuperações mais intensas — algo natural para carteiras tão concentradas.

Conclusão desta fase:
✔️ Conseguimos melhorar substancialmente o retorno.
❗ Mas a volatilidade alta ainda incomoda — e vai contra a filosofia Quanty de buscar retornos consistentes e controlados.

Era o momento de dar o próximo passo:
quantizar a estratégia.
Aplicar o olhar da Quanty significa não apenas aceitar a fórmula original, mas refiná-la, personalizá-la e criar um sistema mais eficiente e resiliente.

No próximo estágio, incorporamos novos filtros de risco e ajustes táticos, construindo o que chamamos de Magic Formula by Quanty.

🔬 Quantizando a estratégia: construindo a Magic Formula by Quanty

Com a redução inicial para 5 ativos, conseguimos dar o primeiro passo para resgatar o espírito original da Magic Formula. O retorno melhorou de forma substancial, mas a volatilidade continuou alta demais para o padrão de consistência que buscamos na Quanty.

Era hora de ir além.

Sabemos que, no mundo real, o investidor não busca apenas o maior retorno possível — ele quer retornos consistentes, com controle de risco, proteção contra quedas abruptas e previsibilidade sobre o comportamento do portfólio.

Foi com essa mentalidade que decidimos construir a nossa própria versão da estratégia.

🎯 Principais evoluções implementadas:

  • Ajuste no tamanho da carteira: ficamos em um meio-termo entre concentração e diversificação, aumentando a seleção para 10 ativos por rebalanceamento.

  • Incorporação da volatilidade anualizada como critério adicional de seleção.

  • Aplicação do VaR diário (252 dias, 95%) como filtro de risco.

  • Rebalanceamento mensal para tornar a carteira mais responsiva às mudanças de mercado.

  • Implementação de stop loss de gatilho de -10%, para proteger o portfólio contra eventos extremos.

Esses ajustes, combinados, transformaram a estratégia em uma máquina de multiplicar patrimônio de forma controlada e previsível.

 📊 Resultados da Magic Formula Quanty (2013-2024)

🧠 Resultados consolidados:

  • Retorno acumulado: +1454,84%

  • Retorno anualizado: +26,17% ao ano

  • Sharpe Ratio: 1,28

  • Volatilidade anualizada: 20,39%

  • Máximo Drawdown: -35,01%

  • VaR diário (95%): -1,94%

📈 Comparação direta: Estratégia Original vs. Quanty Version

Métrica

Estratégia Original

Magic Formula Quanty

Número de ativos

20

10

Rebalanceamento

Anual

Mensal

Retorno anualizado

9,79%

26,17%

Sharpe Ratio

0,44

1,28

Volatilidade

22,12%

20,39%

Drawdown máximo

-47,44%

-35,01%

Retorno acumulado

+201,36%

+1454,84%


🧠 Conclusões práticas

O impacto das mudanças é claro:
A Magic Formula Quanty mais que dobrou o retorno anual, triplicou a relação risco-retorno (Sharpe), reduziu a volatilidade e ainda diminuiu significativamente o drawdown máximo.

Transformamos uma boa estratégia teórica — que ainda sofria de alta volatilidade e quedas dolorosas — em uma solução robusta, previsível e muito mais adaptada ao investidor real.

💬 Enquanto a versão original exigia paciência e nervos de aço, a versão Quanty exige apenas disciplina.


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